As Dietary Guidelines for Americans (DGA) 2025–2030 representam uma inflexão relevante no discurso nutricional oficial dos Estados Unidos. Mais do que atualizar recomendações quantitativas, o documento reforça uma mudança de paradigma: sair de uma nutrição focada apenas em tratamento de doenças e caminhar, de forma mais explícita, para uma abordagem preventiva, baseada em padrões alimentares e saúde pública.
Para os profissionais da nutrição no Brasil, esse documento chama atenção não apenas pelo que traz de novo, mas também pelo que reconhece como erro histórico — especialmente a permissividade com alimentos ultraprocessados que, por décadas, receberam o selo de “opções saudáveis”.
1. O eixo central: comida de verdade como política pública
O documento é claro ao priorizar:
- Alimentos in natura e minimamente processados;
- Redução drástica de alimentos ultraprocessados;
- Padrões alimentares consistentes ao longo da vida, e não soluções pontuais.
Esse ponto merece destaque: as diretrizes reconhecem que doenças crônicas não transmissíveis são resultado de padrões alimentares cumulativos, e não de nutrientes isolados. Essa visão dialoga diretamente com o que o Brasil já pratica desde 2014 com o Guia Alimentar para a População Brasileira, que antecedeu esse movimento internacional ao adotar uma classificação baseada no grau de processamento dos alimentos dietary_guidelines_for_americans.
Em outras palavras: aquilo que ainda é tratado como “tendência” nos EUA já é política pública consolidada no Brasil há mais de uma década.
2. Proteínas: fim do medo e clareza quantitativa
Um dos pontos mais explícitos do novo documento é o reconhecimento do papel central da proteína em todas as refeições.
As diretrizes passam a trabalhar com uma meta quantitativa clara:
- 1,2–1,6 g de proteína/kg/dia, ajustada às necessidades energéticas individuais;
Fontes animais e vegetais são encorajadas, sem demonização de alimentos tradicionalmente excluídos em versões anteriores das diretrizes.
Esse movimento corrige um erro histórico: por muitos anos, dietas oficiais priorizaram carboidratos refinados e reduziram proteínas e gorduras, o que contribuiu para:
- baixa saciedade;
- pior controle glicêmico;
- maior consumo calórico total.
O incentivo a métodos simples de preparo — assado, grelhado, cozido, evitando empanados e frituras — reforça que o problema não é o alimento em si, mas como ele é preparado.
3. Laticínios: reabilitação dos integrais
Outro ponto relevante é a recomendação explícita de laticínios integrais, desde que sem adição de açúcares.
O documento sugere:
- 3 porções/dia em uma dieta de 2.000 kcal.
- Valorização de leite integral, iogurte natural e queijos como fontes de:
- proteína de alto valor biológico;
- cálcio;
- vitaminas lipossolúveis;
- gordura alimentar.
Esse posicionamento reconhece que a retirada indiscriminada da gordura dos alimentos não trouxe os benefícios metabólicos prometidos e, em muitos casos, levou ao aumento de produtos ultraprocessados “light” e adoçados.
4. Frutas e vegetais: forma importa tanto quanto quantidade
As diretrizes reforçam algo fundamental na prática clínica:
- frutas e vegetais devem ser consumidos preferencialmente na forma inteira;
- frescos ou minimamente processados.
Metas sugeridas:
- Vegetais: 3 porções/dia
- Frutas: 2 porções/dia
Sucos 100% naturais não são proibidos, mas devem ser limitados ou diluídos, reconhecendo que a forma líquida altera saciedade, resposta glicêmica e consumo energético total.
5. Gorduras: mais nuance, menos dogma
As DGA 2025–2030 priorizam fontes de gordura como:
- azeite de oliva;
- ovos;
- peixes;
- nozes e sementes;
- abacate;
- gorduras naturalmente presentes em alimentos animais.
A gordura saturada mantém um limite geral ≤10% do VET, mas o documento é transparente ao reconhecer lacunas científicas sobre os impactos diferenciais dos tipos de gordura na saúde de longo prazo.
Reduzir ultraprocessados automaticamente reduz excesso de gordura saturada e trans, sem necessidade de controle obsessivo de macronutrientes.
6. Carboidratos: revisão crítica do passado
Talvez um dos trechos mais autocríticos do documento esteja aqui.
As novas diretrizes:
- priorizam grãos integrais ricos em fibras;
- recomendam 2–4 porções/dia.
- desencorajam carboidratos refinados como:
- pães brancos;
- cereais matinais industrializados;
- crackers e produtos ultraprocessados.
O texto reconhece que, no passado, cereais açucarados chegaram a ser classificados como “saudáveis”, um erro com impacto direto na epidemia de obesidade e diabetes nos EUA.
7. Açúcares adicionados e ultraprocessados: posição inequívoca
Aqui o documento é direto:
- Nenhuma quantidade de açúcar adicionado é considerada saudável;
- Uma refeição não deve ultrapassar 10 g de açúcar adicionado;
- Bebidas adoçadas devem ser evitadas completamente.
Além disso, há desencorajamento explícito do uso de:
- adoçantes artificiais;
- conservantes artificiais.
Essa postura reforça que o foco não é apenas calorias, mas qualidade metabólica do padrão alimentar.
8. Sódio e álcool: sem relativizações perigosas
Sódio:
- Adultos: < 2.300 mg/dia;
- Reconhecimento de que pessoas fisicamente ativas podem necessitar de ajustes;
- Principal alvo: ultraprocessados, não o sal de preparo doméstico.
Álcool:
- Recomendação clara de redução.
- Evitar completamente em:
- gestantes;
- pessoas com histórico de alcoolismo;
- usuários de medicamentos incompatíveis.
O documento é enfático:
“Não existe dose segura de álcool“.
As Dietary Guidelines for Americans 2025–2030 não trazem uma revolução conceitual, mas consolidam algo essencial:
Nutrição eficaz não nasce de nutrientes isolados, mas de padrões alimentares baseados em comida de verdade.Para o Brasil, a principal reflexão é clara:
– já temos diretrizes avançadas, mas ainda enfrentamos dificuldades na aplicação prática, especialmente diante da forte influência da indústria de ultraprocessados.Cabe aos profissionais da saúde, traduzir essas recomendações em condutas clínicas coerentes, individualizadas e sustentáveis, sem retroceder a discursos simplistas ou reducionistas.
REFERÊNCIA:
U.S. Department of Health and Human Services; U.S. Department of Agriculture. Dietary Guidelines for Americans, 2025–2030. Washington, DC: U.S. Government Publishing Office, 2024. Disponível em: https://www.dietaryguidelines.gov










