A Síndrome do Intestino Irritável (SII) é um distúrbio crônico, anteriormente era chamada de “distúrbios gastrointestinais funcionais”, frequentemente é debilitante e altamente prevalente, que envolve a interação intestino-cérebro. Os sintomas da SII afetam muito a qualidade de vida dos pacientes e os mais frequentemente relatados são:
- Dor abdominal, pelo menos uma vez por semna (em média);
- Mudança na frequência e formato das fezes, que por vezes vem acompanhada de piora da dor abdominal após a defecação;
- Distensão abdominal e gases
A diretriz clínica publicada recentemente pelo The American Journal of Gastroenterology (2021), apresenta os critérios diagnósticos para Síndrome do Intestino Irritável, denominado de “Roma IV”. Resumidamente, para que o paciente possa ser diagnosticado com a SII, ele deve estar enquadrado nos seguintes critérios:
- Dor abdominal recorrente, pelo menos uma vez na semana nos últimos 3 meses, associado aos sintomas a seguir;
- Alteração no padrão e na frequência da defecação;
- Alteração no formato das fezes (para compreender melhor sobre a alteração no formato das fezes, leia aqui no site o artigo “Escala de Bristol: suas fezes revelam seu estado de saúde).
A Síndrome do Intestino Irritável (SII) é classificada em quatro subtipos principais, com base no padrão predominante de consistência das fezes. Os subtipos são:
- SII com predomínio de diarreia (SII-D)
- Caracteriza-se principalmente por fezes líquidas ou amolecidas (tipo 6 ou 7 na escala de Bristol) na maioria dos episódios de evacuação.
- SII com predomínio de constipação (SII-C)
- Predomínio de fezes endurecidas ou em formato de bolinhas (tipo 1 ou 2 na escala de Bristol).
- SII com padrão misto (SII-M)
- Caracteriza-se por alternância entre episódios de diarreia e constipação (fezes tipo 1/2 em mais de 25% das evacuações e tipo 6/7 em mais de 25% das evacuações).
Esses subtipos ajudam a guiar o manejo terapêutico individualizado, visto que o tratamento pode variar dependendo da predominância dos sintomas (por exemplo, uso de antidiarreicos, laxantes, moduladores da motilidade ou intervenções dietéticas específicas).
Uma grande deficiência no diagnóstico da SII é a ausência de Biomarcadores, ou seja, não há um exame laboratorial e/ou de imagem que possam diagnosticar diretamente e com precisão a SII. Neste sentido, o diagnóstico da doença deve ser realizado por exclusão, ou seja, deve-se investigar outras doenças inflamatórias intestinais, como Doença Celíaca, Doença de Crohn, Retocolite ulcerativa e, com o resultado negativo para elas, conclui-se que o indivíduo sofra de SII. Os exames de diagnóstico que podem ser realizados são: Hemograma completo, Proteína C reativa e/ou VHS (Velocidade de Hemossedimentação), Calprotectina fecal, exames parasitológicos e pesquisa de patógenos fecais, exames sorológicos para Doença Celíaca (anti-transglutaminase IgA, anti-endomísio e dosagem de IgA total) e Colonoscopia (em casos específicos).
O manejo e tratamento da SII deve ser individualizado, baseado no subtipo (SII-D, SII-C, SII-M), nos sintomas predominantes e na resposta do paciente às intervenções. As principais intervenções dietéticas e no estilo de vida que impactam positivamente na melhora dos sintomas da SII são:
- Acompanhamento com nutricionista para aplicação de estratégias nutricionais que objetivem minimizar os desconfortos ocasionados pela SII. Uma dieta pobre em FODMAPs, (um plano alimentar que visa reduzir ou eliminar temporariamente certos tipos de carboidratos que podem ser difíceis de digerir para alguns indivíduos), pode ser uma estratégia muito benéfica para o manejo da SII;
- Controlar a ingestão de alimentos específicos como os ultraprocessados (industrializados), alimentos muito gordurosos ou picantes;
- Evitar o consumo de álcool;
- Controlar a ingestão de alimentos que contenham lactose;
- Controlar a ingestão de cafeína;
- Aumentar o consumo de fibras solúveis (ex.: Psyllium), principalmente para quem possui SII com predomínio de constipação;
- Para quem possui SII com predomínio de diarreia, é necessário controlar o consumo de fibras insolúveis, como farelo de trigo, aveia integral, frutas com casca (ex.: maçã e pera) e vegetais folhosos. Estas fibras tendem a aumentar o volume das fezes e aumentar a motilidade intestinal, podendo ocasionar piora para quem possui SII-D.
- Praticar exercício físico com regularidade, pelo menos 150 minutos por semana de atividade moderada. Os benefícios da prática de exercícios físicos são comprovados na redução da dor abdominal e na regulação do trânsito intestinal.
- Fazer terapia (ex.: terapia cognitivo-comportamental, mindfulness e técnicas de relaxamento), são comprovadamente eficazes, especialmente em pacientes com sobreposição de sintomas psicológicos.
Existem também as terapias farmacológicas (ex.: laxantes, antiespasmódicos, probióticos, antidepressivos) que devem ser prescritas exclusivamente por um profissional da saúde, como o médico gastroenterologista. Estas podem auxiliar enormemente no controle dos sintomas, porém não excluem a necessidade da mudança nos hábitos alimentares e estilo de vida.
Não deixe que a SII controle sua vida: com o acompanhamento médico adequado e mudanças no estilo de vida, você pode assumir o controle e viver com mais leveza e bem-estar.
Assita ao vídeo a seguir, onde relato minha experiência particular com a SII-D ao longo de mais de 10 anos de tratamento https://youtu.be/5o7zjeT5kzc?si=gQGA5b0FUEuiticP
REFERÊNCIA:
- Lacy, Brian E. PhD, MD, FACG 1 ; Pimentel, Mark MD, FACG 2 ; Brenner, Darren M. MD, FACG 3 ; Chey, William D. MD, FACG 4 ; Keefer, Laurie A. PhD 5 ; Long, Millie D. MDMPH, FACG (Metodista GRADE) 6 ; Moshiree, Baha MD, MSc, FACG 7 . Diretriz clínica da ACG: Tratamento da síndrome do intestino irritável. The American Journal of Gastroenterology 116(1):p 17-44, janeiro de 2021. | DOI: 10.14309/ajg.0000000000001036